4 dias de trabalho, são a solução para os problemas de exaustão profissional? 

semana de 4 dias
Fonte da imagem: Unsplash.com

Ao ler a publicação do ECO, do passado dia 07 de junho, na qual Miguel Fontes, secretário de Estado do Trabalho falava sobre o piloto da semana dos 4 dias, que arrancou, nalgumas empresas privadas em Portugal, sugiram algumas questões a quem é empresário e trabalha no terreno com empresários. 

Primeiro surge a questão do setor e do tipo de laboração. Será que a semana de 4 dias é aplicável a qualquer setor e qualquer esquema de laboração (exemplo: laboração contínua)? 

Pela análise feita pelos outros pilotos lançados noutros países, existe forma de contornar essa dificuldade, com as chamadas “semanas de 4 dias condicionais”. Claro está, que para que tal aconteça, toda a empresa tem de estar alinhada e a trabalhar para o mesmo, para que todos possam usufruir de mais algumas horas de descanso. 

Agora, quando se fala em semana de 4 dias, a primeira questão que me surge é a questão da produtividade e a cultura estabelecida em centenas de empresas em Portugal. 

A CULTURA: 

  • Do vou ali tomar um cafezinho e falo com os colegas pelo caminho. 
  • Do vou ali fumar um cigarrinho e já volto. 
  • Do vou ali entregar este documento e aproveito para falar disto e daquilo. 
  • Do atender o telefone, o telemóvel, do ler as mensagens, do ler o e-mail dezenas de vezes ao dia, deixando as tarefas mais prioritárias para trás. 
  • Do vamos fazer uma reunião para falar sobre isso e realmente tudo o que se faz é falar sobre aquilo e não fica nada decidido. 
  • Do olhar de lado quando os trabalhadores saem à hora. 
  • Do achar que se vai ser promovido porque se leva trabalho para casa ou se fica depois da hora. 
  • Do “este não vai fazer isto rápido” por isso vou dar o trabalho ao outro. 
  • Do mais vale ir lá eu fazer que dá muito trabalho estar a explicar. 
  • Da “reação” em vez da cultura da “prevenção”. 
  • Do tenho de controlar o que dizem, o que fazem e o que se partilha, para depois criar um ambiente propício ao cochicho, aos rumores, aos boatos e ao desabafo de corredor. 
  • Do “isso ainda não foi tratado” porque estou à espera de um e-mail, de uma decisão (…). 
  • Do “estou contactável durante as férias”. 
  • Do enviar e-mails/mensagens ou mesmo telefonar, fora do horário de trabalho. 
  • Do “coloca-me em CC no e-mail” para eu poder dizer que tenho 1000 e-mails para ler. 
  • Do utilizar o e-mail como base de dados. 
  • Do contratei pessoas responsáveis, mas vou lá e passo por cima de tudo o que elas dizem, porque eu é que sou o dono disto tudo. 
  • Do “ninguém se consegue focar 25 minutos seguidos” sem ser interrompido por um telefonema, por uma notificação, por alguém que fala ao lado ou bate à porta. 
  • Do é melhor continuar a escrever num Word porque aprender Excel dá trabalho. 
  • Do não há tempo para “informatizar” isto. 
  • Do “o computador serve muito bem para aquilo que fazes” e não interessa que uma coisa que podia demorar 5 minutos a ser feita, esteja a demorar 25 minutos, porque os equipamentos estão obsoletos ou porque o investimento em software “não é uma prioridade desta empresa”. 
  • Do “acha que tenho tempo para ensinar um estagiário”. Vai atrapalhar mais do que ajuda. 
  • Do “nós sabemos que aqui pagamos mal”. 
  • Do “estou desesperado por mão de obra “e vou propor um contrato de trabalho ao primeiro que aparecer. 
  • Do “como isto está, a única forma que tenho de arranjar pessoas é pagar por debaixo da mesa”. 
  • (…) 

A cultura que gera falta de produtividade e mau ambiente. 

As empresas que implementaram a semana de 4 dias com sucesso, noutros países, são empresas que já eram minimamente produtivas ou que se tornaram. 

E tornaram-se, não porque foi lá uma equipa de intervenção do governo, fazer um acompanhamento e ajudá-las a ser mais produtivas, mas porque o ser humano une-se quando tem um propósito comum, e que fale mais alto do que as suas diferenças. 

Nas empresas bem-sucedidas, os próprios trabalhadores, começaram a recusar reuniões inúteis, começaram a organizar o seu dia de trabalho de acordo com blocos de tempo. Simplificaram os processos e procedimentos para poderem dar respostas muito mais rápidas e usufruírem do descanso adicional, que a semana de 4 dias lhes proporcionava. 

Será a questão da semana de 4 dias a solução para os problemas das empresas e a solução para elas se tornarem mais atrativas?! 

Atualmente, a grande maioria dos trabalhos em setores administrativos, já conseguem aumentar a percentagem de retenção dos colaboradores atuais, e conquistar novos, com o simples facto de lhes permitirem trabalhar, nem que sejam apenas 2 dias, a partir de casa. 

Aliás, tem sido a sorte de muitas empresas com mau ambiente de trabalho, em que os trabalhadores afirmam que o facto de não estarem a “levar com aquilo” 5 dias por semana, ajuda bastante e faz com que tolerem a situação. 

O simples facto de um trabalhador dizer ao seu coordenador ou ao seu patrão que vai tirar o dia, porque é mais produtivo em casa, é um alerta vermelho do tamanho de um arranha céus e muito esclarecedor da vontade dos responsáveis pela empresa, de resolver as questões internas ou de “tapar o sol com a peneira” e evitar fazer alterações estruturais aos seus procedimentos, processos e pessoas, para melhorar o ambiente de trabalho e tornar toda a estrutura mais produtiva. 

Depois temos a questão dos serviços que necessitam dos trabalhadores no local, os trabalhadores operacionais. A maior percentagem valoriza salário e outros benefícios, e o ambiente trabalho. Com base nas centenas de trabalhadores operacionais com quem já trabalhamos, não será exclusivamente, a adesão à semana de 4 dias de trabalho que se tornará apelativa para reter e atrair os trabalhadores operacionais. 

Existem em Portugal, empresas que implementaram, já há alguns anos, o conceito de “sexta-feira à tarde livre” para os seus trabalhadores, e sim, é uma mais-valia que realmente faz com que, quem queira abandonara a empresa, pondere sobre se está disposto a abdicar dessa regalia. No entanto, depende da razão pela qual a pessoa pretende abandonar. Questões como mau ambiente de trabalho, desorganização e desconhecimento do que se pretende da pessoa, são as questões mais relatadas pelos colaboradores que abandonam as empresas. Mesmo que não encontrem, numa próxima empresa, a regalia de mais horas de descanso, na hora da decisão, há algo que pesa mais, a sua sanidade mental ou os seus valores pessoais. 

Para uma empresa ser mais apelativa para um jovem trabalhador, não é preciso fazer um estudo muito detalhado, para perceber que a nova geração valoriza realmente o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, mas esta geração valoriza ainda mais o salário, os benefícios personalizados, o desafio que a oportunidade lhes traz, e os valores vividos na empresa. 

O pós-covid foi muito impactante para as famílias com filhos por isso, mais do que atração, medidas que resultem em menos horas de trabalho podem ter um impacto muito significativo na retenção de trabalhadores com filhos em idade escolar, mas apenas em famílias que se encontrem estáveis financeiramente, caso contrário, a atenção volta a focar-se nos salários e nos benefícios. 

Na entrevista com o secretário de Estado do Trabalho pode ler-se que:

“É um bom cartão de visita aderir à semana dos quatro dias.

A minha questão vai um pouco mais além. Do quê que adianta às empresas divulgarem que aderiram à semana de 4 dias para atraírem talento, de depois não conseguirem retê-lo? 

Será legítimo questionarmos se tal cartão de visita, não poderá vir a ser enganador? Será que algumas empresas não irão tentar aliciar trabalhadores com a semana de 4 dias, e vão continuar a ser totalmente improdutivas e a sobrecarregar os colaboradores? 

Pode ainda ler-se que:

“Olhar para as condições de trabalho, da remuneração, dos tempos de trabalho, de como as pessoas se sentem no local de trabalho, não é uma agenda sindical, é uma agenda de todos e, nomeadamente, das associações empresariais se quiserem ser competitivas.”

Da próxima vez que um empresário quiser dar melhores benefícios aos seus trabalhadores e lhes quiser aumentar o ordenado, para se tornar mais apelativo relativamente à concorrência, cabe às Associações Empresarias ajudarem os empresários a perceber quanto desse investimento no trabalhador será partilhado com o Estado?! 

Porque, curiosamente, acredito que todos nós empresários, já fizemos esses cálculos e já tentamos ser criativos de muitas formas para conseguirmos dar melhores condições aos nossos trabalhadores. 

Talvez o senhor secretário de estado do Trabalho desconheça a dificuldade que é para um empresário, reunir-se com a sua equipa de contabilidade e explicar que quer “dar estas” condições aos seus trabalhadores, mas de forma a que o trabalhador não saia prejudicado, tendo que pagar impostos sobre o valor que recebeu merecidamente pelo seu trabalho. 

As Associações Empresariais podem sim, tal como fez a  AESINTRA | Associação Empresarial de Sintra  ao assinar um protocolo com a  Academia do Empresário, disponibilizar o acesso aos seus associados, a serviços que permitem melhorar o desempenho de pessoas, processos e procedimentos, aumentando a produtividade, a retenção e as hipóteses de competitividade. 

As empresas precisam de apoio a organizarem-se, precisam de muita formação para perceberem o benefício que conceitos como “digitalização” e “gestão do bem-estar de pessoas” podem ter. O impacto que poderão ter imediatamente no seu lucro, na sua competitividade e até mesmo na sua sobrevivência. 

As empresas precisam de suporte e formação para perceberem concretamente o que afeta a sua produtividade e precisam de muito mais flexibilidade para poderem aumentar as condições financeiras dos seus trabalhadores. 

Miguel Fontes, secretário de Estado do Trabalho, diz ainda:

“O essencial é lançarmos este estudo, esta temática para o centro do debate das organizações, porque é muito importante, nomeadamente para corresponder ao anseio dos trabalhadores mais jovens que têm uma visão muito diferente do mundo do trabalho.”

Os trabalhadores mais jovens fogem de Portugal à procura de salários mais altos vs. Menos horas de trabalho, não é só para terem mais um dia descanso!  Os trabalhadores mais jovens trocam de empresa para terem mais lucro. Ou porque ganham mais, ou porque têm uma deslocação menor, ou porque evitam algum tipo de custo e depois sim, analisam a componente descanso e valores. A empresa que lhes der melhores condições financeiras, mais flexibilidade, facultar mais desafios e os tratar bem, é que vence na corrida das contratações. 

Do quê que adianta às empresas divulgarem que aderiram à semana de 4 dias para atraírem talento, se depois não conseguirem retê-lo? 

Esta sim, parece-me ser a grande questão. 

Sandra Sousa | Academia do Empresário 


Link para a publicação mencionada acima: 

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